Portugal sempre foi um país pobre em termos europeus. Hoje o PIB per capita continua apenas 4/5 (81%) da média da EU27. Da média. Não comparando com os melhores. E a média incluindo a Bulgária, Roménia, Chipre, Grécia, etc.

Isto não é novidade. O que é novidade é que hoje os portugueses parecem mais insatisfeitos, se não mesmo zangados, com a vida. Andam maldispostos.

As razões são três.

Primeiro, a comparação. Desde 2018 o número de estrangeiros a viver em Portugal duplicou.

E parte não vem só para trabalhar de países do terceiro mundo, mas também para se reformar da Europa e (da classe média-alta e alta) do Brasil.

E depois há o turismo. Trinta milhões em 2024 e a previsão de um aumento de dez por cento em 2025.

A sociologia e a psicologia ensinam que a insatisfação deriva não tanto do absoluto, mas do relativo.

Os portugueses contam os cêntimos. Os estrangeiros gastam à grande e à francesa. Como se hão de sentir os portugueses? Felizes com a (sua) vida?

Em segundo lugar, os portugueses são um povo cansado. E há duas razões para tal.

Enquanto o PIB per capita é 81% da EU27, a produtividade por hora é pouco mais de 2/3 da média (69%), menos 12% (81-69), indicando que o PIB per capita é suportado por 1) os portugueses trabalharem mais horas e 2) maior percentagem do total da população (onde estão incluídas as mulheres) a trabalhar.

Acresce que uma parte significativa do dia é passada em transportes públicos. Deixando de lado a falta de qualidade e as greves, há o facto dos portugueses serem empurrados para a periferia devido ao aumento de preço das casas: dez por cento (três vezes o da EU e cinco vezes o da zona euro), pelo que em Maio deste ano, o preço médio de uma casa atingiu 414 mil euros. E o aumento das rendas em 2024 foi de 7%, mais do dobro da EU27 de 3%.

Quando se tem filhos, uma casa para tratar, pais que não se pode colocar num lar por falta de oferta e preços acessíveis, se trabalha muitas horas e uma parte significativa do dia é gasta em transportes, o resultado é uma das maiores taxas de divórcio europeias: um em cada dois casamentos acaba em separação.

Em terceiro lugar, a qualidade de vida deteriorou-se. Também por várias razões: as periferias são selvas de cimento, feias e agrestes, longe de aprazíveis; tratar de qualquer assunto é uma dor de cabeça pela burocracia (devia-se instituir um prémio às repartições públicas que atendem os telefones); e o não funcionamento do SNS (que nalguns casos não passa de um powerpoint).

A criminalidade, essa, aumentou 8% em 2023 para se reduzir 5% em 2024 mas com um aumento da violenta de 3%.

A percepção é pior? Põe-se a questão se é a percepção ou os números (reportados) que estão errados. É que a população em geral não vive numa bolha mas nas ruas.

E de qualquer modo a percepção é a realidade.

Por isso, amigo leitor, quando se perguntar porque andam (quase?) todos à sua volta zangados com a vida, recorde-se de quatro números:

  • 1) Produtividade por hora de trabalho ± 2/3 da média da EU27 (69%);
  • 2) Preço das casas a subir cinco vezes a média da zona euro;
  • 3) Das rendas, mais do dobro da EU27; e
  • 4) Metade dos casamentos a terminar em divórcios.

E assim se “constrói” um país. Pelos frutos os conhecereis (Evangelho de Mateus 7:16, 20)

JORGE A. VASCONCELLOS E SÁ

Senior Researcher at CIGEST

MBA Drucker University / PhD Columbia University / Jean Monnet Chair

 

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