Segundo Platão, Theaetetus diz a Sócrates que a verdade é relativa, pessoal e subjectiva. A dele e a de Sócrates podem ser ambas, distintas e ambas verdadeiras.

Mas… responde Sócrates, para mim a verdade não é relativa, não é uma questão de opinião, mas sim objectiva e absoluta. Acredito que só há uma verdade e que a tua crença na relatividade da verdade é falsa e consequentemente deve ser abandonada.

Pelo que das três, uma:

Ou podemos estar ambos certos como tu defendes, eu inclusive e então (dada a minha crença no absolutismo da verdade) tu estás errado e a verdade é única.

Ou estou eu apenas certo, e novamente a verdade é única;

Ou finalmente (3ª hipótese) eu estou errado e então não estamos ambos certos, tu contradizes-te e novamente só há uma única verdade, neste caso a tua.

Em qualquer dos casos só há uma verdade. Absoluta. Objectiva. Não subjectiva.

O Talmude (colectânea de livros sagrados com discussões rabínicas escrito aquando da diáspora e após Jesus Cristo) refere que um sinédrio (tribunal religioso) que tenha decidido por unanimidade uma pena de morte não a pode implementar, uma vez que unanimidade significa que o acusado não teve um defensor diligente apresentando os seus argumentos em tribunal, pelo que a sentença fica sem efeito e não pode ser executada.

Por debaixo da aparente contradição, está o cerne de que o Talmude e o diálogo socrático se completam.

A verdade é única: não existem várias mas apenas uma. Ou é, ou não é.

Mas cada verdade só é total, completa, se abranger diversos ângulos de visão e perspectivas as quais completam, formatam e enriquecem a verdade.

E tal constitui as pedras angulares da organização social judeo-cristã que requer liberdade e igualdade. Liberdade para debater. Igualdade para o poder fazer.

Liberdade ilustrada pelo confronto de ideias em séries de debates entre os dois maiores advogados das últimas décadas, A. Dershowitz (democrata de esquerda) e R. Cohn (republicano de direita), separados por tudo, tudo, excepto no essencial: unidos na defesa do direito do opositor à opinião contrária. Voltaire (atribuído a): não acredito numa tua só palavra, mas defenderei até à morte o direito de dizeres. Rosa Luxemburgo: a liberdade é sobretudo a dos outros.

E igualdade nos direitos e deveres. Para que todos possam participar mesmo que por hipótese extrema concordem com C. Rhodes (empresário e governador da África do Sul e personalidade proeminente do século 19) quando disse não haver nada tão certo como a desigualdade entre os homens.

Mesmo aqui é fundamental a igualdade perante a lei, isto é lei para todos. Contrariamente ao que alguns ditadores do terceiro mundo dizem e seus travestis do primeiro pensam: para os meus amigos tudo; para os meus inimigos… a lei.

E quanto ao mais… um rabino ouvia a discussão entre marido e mulher. Esta queixava-se da infidelidade do marido e de lhe dar insuficiente dinheiro para a lida da casa. Tens razão minha filha, disse o rabino.

O marido, então, queixou-se da recusa da mulher em dormir com ele, bem como de fazer as suas refeições. Tens razão meu filho, disse o rabino.

Mas, interrompeu um estudante: rabino!, não podem estar ambos certos…

O rabino parou, pensou e por fim respondeu: também tens razão…

JORGE A. VASCONCELLOS E SÁ

Senior Researcher at CIGEST

MBA Drucker University / PhD Columbia University / Jean Monnet Chair

 

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