Imagine o leitor que primeiro pergunta-se porque Cabo Verde é hoje considerado o grande milagre económico de África.

Isto é, um país que sem quaisquer recursos valiosos (por oposição ao Botswana, etc.), teve um grande ponto de inflexão no crescimento económico.

Na década de 80 cresceu per capita a 3,7%.

Entre 1991 e 1998 fez reformas.

E na década seguinte a taxa de crescimento foi de 6,8%.

Mais 3,1% em termos absolutos. Mais 85% em termos relativos, quase duplicando. Sendo a diferença estatisticamente significativa a 5% (a probabilidade da diferença de crescimento ser devida ao acaso é mínima).

Depois o leitor vai ver que reformas foram feitas: 1) privatização das empresas públicas; 2) liberalização do comércio externo; e 3) interno (desregulamentação); 4) liberalização do investimento externo; 5) equilíbrio orçamental; 6) reforma (a sério) do estado; e 7) da justiça; 8) descentralização municipal; 9) introdução da democracia.

Seguidamente questione-se se a “receita” foi essencialmente esta em outros milagres económicos?

E assim o leitor entra no terceiro passo: investiga a Malásia. A Nova Zelândia. A Austrália. O Chile. A Irlanda. Concluindo que em todos os casos as reformas estruturais foram essencialmente as mesmas: 1) liberdade económica; 2) descentralização; 3) desburocratização; 4) redução do estado e equilíbrio orçamental; 5) império da lei (justiça célere e cega e mais democracia).

Finalmente, cheio de entusiasmo e munido da evidência, o leitor partilha-a com um familiar imbuído de ideias contrárias. Nota: familiar, não amigo porque na vida os amigos podemos escolher… quanto aos familiares…

Para ele não se convencer. Porquê estes países? E as Maurícias? (o leitor responde idem, idem, aspas, aspas). E a Turquia? Igual. Bem mas porquê comparar dez anos antes e depois das reformas e não… onze anos? E doze? Fez as contas para treze? Os resultados são os mesmos. Porquê? Porquê?

Frustrado o leitor conclui que ele “não consegue perceber”. Tem um defeito na cabeça. Não consegue ver a realidade. O mundo tal como ele é. Os factos. Coitado, não deve nada à inteligência…

Tenta então com um outro familiar… com ideias semelhantes ao primeiro… E o resultado é… o mesmo.

Caramba, quantos “burros” há?… Não há maneira… E consola-se com as máximas romanas e de Churchill: stultorum numerus infinitus est (o número de tontos é infinito) e o maior argumento contra a democracia é uma conversa de cinco minutos com um eleitor (Churchill).

Como quem não pensa mal, não julga mal, cheio de ingenuidade o leitor conclui que tem que fazer os argumentos mais simples para eles perceberem… e com isto comete um erro capital porque vai exaurir-se ingloriamente: argumentando, trazendo novas evidências, chamando a atenção para… tudo, tudo, tudo, em debalde.

Porque não é que eles não consigam perceber. É que eles não querem perceber. Eles conseguem ver. Mas não querem.

A razão porque odeiam a liberdade económica e consequentemente economia de mercado é emocional, não racional.

É a inveja, a preguiça e a mediocridade.

Vejamos: na economia de mercado o desempenho é premiado. E uns têm mais sucesso que outros.

E os falhados têm duas opções: atribuir a culpa a eles ou ao sistema.

O que acha o leitor que fazem para preservar a auto-estima? Evitar a humilhação?

Transformam o ressentimento da inveja e a frustração na teoria de que o sistema é injusto. O chão está inclinado.

A preguiça e a mediocridade geram falhanço. Este a humilhação juntamente com a inveja. E ambos o ódio ao sistema: ao capitalismo.

Uma doença aliás extensiva a intelectuais dado que o mercado recompensa mais os empresários e gestores do que os académicos.

É esta a tese do livro de Ludwig von Mises (da escola austríaca de economia): a mentalidade anticapitalista.

A doença não é da cabeça, é da alma. Preguiça, mediocridade, inveja.

Pelo que argumentos racionais, por muito eficientes que sejam, serão sempre ineficazes porque focam no sítio errado.

E o amigo leitor ao não reconhecer isto estará a exaurir-se ingloriamente. Por ingenuidade sua.

Pelo que não junte um defeito (seu) a uma doença da alma (deles).

É que eles nunca trabalharão porque não conseguem tirar a mão dos bolsos dos outros.

JORGE A. VASCONCELLOS E SÁ

Senior Researcher at CIGEST

MBA Drucker University / PhD Columbia University

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