Não há semana em que não venha alguém dizer publicamente que a solução para os problemas do seu sector é mais recursos. São precisos mais recursos.
Das duas, uma. Ou é ignorante (o que é grave). Ou já está pouco lúcido (o que ainda é pior). Porque a primeira corrige-se. A segunda não; já foi o tempo.
Pouco lúcido significa estar chéché e já não se lembrar da primeira linha da primeira página de um livro de introdução à economia: os recursos são escassos.
Sejamos, pois, caridosos e demos o benefício da dúvida: é um problema de ignorância.
E ignorância de quê? De duas coisas.
Primeiro: a grande quantidade de portugueses que não trabalha.
Deixando de lado – com honrosas excepções – os mais de 750 mil funcionários públicos da administração central, regional e local, há depois os empregados de entidades controladas pelo estado como institutos, entidades públicas empresariais e empresas públicas para as quais não encontrei estatísticas que diferenciam os seus empregados dos funcionários públicos.
Donde, duas notas:
1 – Aplica-se aqui o mesmo critério de ao crime. Antes havia a percepção que crescia mas os dados não o confirmavam… Agora finalmente chegaram os dados. Donde em Portugal a percepção precede os números: o leitor tem a sensação que são muitos, não tem? E que há uma diferença entre empregados e trabalhadores, certo?
2 – É que relativamente às empresas controladas pelo estado na sua globalidade, perguntemo-nos: o que eram os países comunistas senão países de empresas públicas onde os empregados diziam: fingem que nos pagam e nós fingimos que trabalhamos.
Seguem-se os pensionistas (mais de três milhões, 28,3% da população recebe pelo menos uma pensão), acima dos 27,1% da média da EU-27. Embora haja alguns problemas com a comparabilidade dos dados (anos e os pensionistas da CGA podem não estar integralmente incluídos no número de cima), o número português é elevado. Malta p.e. tem 18,6%, Irlanda 22%, Países Baixos idem, etc.
Depois, perto de 400 mil pessoas recebem subsídio de desemprego.
E mais de 200 mil auferem de rendimento mínimo ou assistência social.
Acresce ainda que Portugal tem um sistema social com muitas prestações diferentes o que facilita os abusos de todo o tipo.
Naturalmente que alguns valores de cima são impossíveis de reduzir (pensões). Outros, obviamente que não.
Mas onde é maior a ignorância dos que constantemente pedem mais e mais recursos é no segundo aspecto.
Sendo os recursos escassos, a grande solução é aumentar a produtividade dos que já existem. Já estão empregues. Parte tem a ver com a gestão. Outra parte tem a ver com a presença. Melhor dito, a ausência.
Absenteísmo? Portugal: 11-13 dias perdidos por trabalhador/ano. Na Europa: 8-9 dias/ano. Logo, Portugal apresenta entre +30% a +50% de absenteísmo que a média europeia.
Na saúde quase metade (47%) faltam um ou mais dias. E quase 8% (7,7%) faltam mais de 20 dias por ano. Mutatis, mutandis, em outros sectores a começar pela educação: hoje não houve aula, o professor não veio.
Greves? Portugal perdeu entre 11 a 20 dias por mil habitantes (dados mais recentes), um valor muito superior aos países exemplares: Áustria, países nórdicos, etc.
Se à desorganização que impera nas empresas portuguesas se somar o absenteísmo e as greves, não admira que a produtividade por hora de trabalho ande ± (aproximadamente) pelos 3/4 da EU, zona Euro e OCDE.
Junte-se a isso os ±3,6 milhões de pensionistas, beneficiários de subsídios de desemprego e sociais, mais os empregados da administração pública e de empresas e institutos públicos e ter-se-á a explicação porque em Portugal não há recursos que cheguem.
Muitos não têm (querem) emprego. Muitos quando o têm primam pela ausência. E quando lá vão, fazem figura de corpo presente (responsabilidade da gestão).
É por isso que os fanáticos que exigem recursos são ignorantes. Porque se soubessem o de cima (e continuassem a exigir) seria sinal que estavam pouco lúcidos.
Amigo leitor, seja caridoso.
JORGE A. VASCONCELLOS E SÁ
Senior Researcher at CIGEST
MBA Drucker University / PhD Columbia University
