O central que defendeu os três grandes do futebol português e representou Portugal quinze vezes, seguiu a carreira de treinador em Angola.
Encontrou a morte quando em Benguela abriu a porta do sexto andar do elevador do seu hotel e caiu no alçapão (o elevador avariado estava parado no rés-do-chão…).
Dado como morto, um colaborador meu sobreviveu a semelhante experiência em Carnide (é que a queda foi “só” de um 5º andar…).
No dia doze deste mês uma reportagem televisiva analisava a ocorrência repetida destas “experiências” em edifícios geridos por uma empresa da Câmara de Lisboa.
Uma empregada da minha casa chega invariavelmente fora de horas. Umas vezes atrasada; outras muito cedo. Com os autocarros raramente circulando pontualmente a sua utilização é uma roleta de horário. Chega-se quando se chegar. Lo que sera, sera. Whatever will be, will be.
Há crescentes acidentes com autocarros na via pública. E é frequente vê-los parados por avaria.
O pai de um funcionário meu que superintendia uma oficina de reparação de autocarros, reformou-se o mais cedo possível porque não suportava que muitos empregados não fossem meticulosos e rigorosos, não prestando ao seu trabalho, ao que estavam a fazer, a devida atenção.
Atenção. Recordo-me de em Harvard ter assistido a uma conferência de um empresário. Durou pouco mais de dez minutos: “O essencial para o sucesso de uma empresa”, disse, “é contratar pessoas que prestem atenção, estejam alertas”. A dois níveis.
Primeiro, ao que fazem: I do not care how much you know until I know how much you care.
Segundo, prevendo os acontecimentos: um dos testes do profissionalismo é a capacidade de prever um problema antes que se torne uma emergência.
Os destituídos desta atitude, prejudicam gravemente a sua empresa. Traem os colegas (ao prejudicar o sucesso de todos). Defraudam os clientes (vendendo gato por lebre entregando produtos ou serviços defeituosos). E enganam a empresa/accionistas (que neles confiaram).
Numa empresa cada um tem que cumprir o seu dever.
O que depende da cultura da empresa.
Que por sua vez depende de quatro coisas.
Primeiro, do DNA do país. A Alemanha tem qualidades que o Brasil não tem. E os brasileiros têm qualidades de que os alemães carecem.
Segundo, dos incentivos. Numa organização as pessoas não se comportam como lhes pedimos, mas como as incentivamos. E existe sempre um sistema de incentivos. Quando ele não existe, incentiva-se o desleixo, o deixa andar, o não te rales, a bandalheira, o “onde vais almoçar hoje?”. Se tanto faz, faz de conta.
Terceiro e ainda relativo a incentivos mas agora externos à organização. Em países com tribunais 1) especiais, 2) rápidos, e 3) com responsabilidade individual, repito individual, dos gestores, estes tendem a… estar mais alerta, a … prestar mais atenção, a… controlar melhor (o trabalho dos seus funcionários).
Responsabilidade individual (incluindo pesadas indemnizações e prisão). Não multas a serem pagas apenas pelas autarquias (isto é os munícipes) ou pelas empresas (leia-se os accionistas). Aqui são os outros a pagar. E com o mal dos outros posso eu bem…
Finalmente, a atenção, o cuidado, o zelo, depende do sistema económico. Tal como o preço da liberdade é a responsabilidade, não há sentido de responsabilidade sem liberdade.
Onde impera a liberdade económica, a empresa ou desempenha ou sai do mercado. O funcionário ou cumpre ou “está a andar” (como me disse um taxista português na Suíça explicando porque a Suíça é muito mais rica que Portugal).
Os alemães têm sentido de dever? Certo. Schuld em alemão tem dois significados: dívida e… culpa. E faul também: preguiçoso e… pobre.
Há um povo alemão. Mas houve duas Alemanhas. Uma das experiências marcantes da minha vida foi (antes da queda do muro) passar de metro da Alemanha Ocidental (da Siemens, Porsche, BMW, Volkswagen, Audi, Mercedes, Bosch, Aldi, SAP) para a Alemanha de leste onde tudo, absolutamente tudo era cinzento, sujo e desmazelado.
O desleixo primeiro estranha-se e depois entranha-se. Por isso muitos anos após a unificação os alemães ocidentais ainda falavam de um mauer kopf (muro mental) que os separava dos orientais.
Fazendo o reset:
- 1) O socialismo (eliminando a responsabilidade individual) afecta as mentalidades e não permite a liberdade (como pode tê-la um irresponsável?); e
- 2) Os incentivos (internos e externos às organizações) são imprescindíveis ao desempenho (qualidade, segurança).
E assim sucintamente: aquilo que se incentiva é aquilo que se tem.
A bandalheira não é uma fatalidade. A bandalheira é uma opção.
JORGE A. VASCONCELLOS E SÁ
Senior Researcher at CIGEST
MBA Drucker University / PhD Columbia University / Jean Monnet Chair
