Em 1953, Charles E. Wilson, presidente da General Motors foi nomeado por Eisenhower, secretário de defesa.
Nas sessões para aprovação no senado, Wilson disse que há muito que pensava que o que era bom para os EUA era bom para a General Motors e vice-versa.
Rapidamente os media e os críticos se insurgiram contra o vice-versa. E isto numa altura em que a GM era a maior empresa dos EUA e o maior empregador industrial (com a indústria representando cerca de 25% do PIB e 30% do emprego total).
Se a fixação dos críticos no vice-versa (o que é bom para a GM é bom para os EUA) tem sobretudo a ver com a arrogância, ambos lados da frase têm tanto de errado, como de perigoso.
O mais fácil de ver é que um país pode querer aumentar a concorrência num mercado através de anti-trust ou regulamentação e isso vai contra os interesses das empresas instaladas.
Mas o mais importante é o perigo do domínio das empresas sobre a sociedade criando relações demasiado próximas entre o governo e as empresas: incestuosas, próprias de uma plutocracia. Uma corporate society. Aquilo que Aristóteles chamava de oligarquia como degenerescência da aristocracia.
O lucro é em geral sinónimo de responsabilidade social: o empresário ou o gestor dá (em vendas) à sociedade mais do que dela tira (as compras) e portanto cria valor. Daí se dizer que os empresários/gestores são os alquimistas modernos: pegam em bronze e vendem prata; pegam em prata e transformam-na em ouro. Livremente. Sem obrigar ninguém a comprar-lhes. Com clientes. Não contribuintes sob o jugo da força.
Mas uma coisa é dizer que o lucro é parte da solução para o bem-estar em termos de nível e qualidade de vida.
Outra coisa é dizer que tal ocorre sempre e em qualquer circunstância.
Se uma empresa poluir. Se uma empresa não oferecer higiene no local de trabalho. Se faltar a segurança multiplicando os acidentes de trabalho. Se usar mão-de-obra escrava. Ou de países cuja cultura (direitos das mulheres, crianças – casamentos infantis – etc.) for incompatível com a cultura do país hospedeiro e os direitos do Homem.
Em todas as situações de cima, a empresa lucra mais, mas a sociedade fica pior.
O que isto significa é que o governo não existe para servir as empresas. Mas estas para servir a sociedade.
Donde, um ponto prévio e três conclusões.
Ponto prévio: É significativo do estado de recessão da mentalidade de Portugal, o desplante (à falta de melhor palavra) com que alguns invocam os interesses das empresas como o bem social não só maior, mas único. Mais de setenta anos depois da indignação que semelhante frase causou nos EUA, um país do qual Calvin Coolidge disse: the business of American is business. E as pessoas são frequentemente avaliadas por: how much is he/she worth?
E a contraciclo do que países mais desenvolvidos fazem (como p.e. os EUA que têm um PIB per capita quase o dobro do português) em que rejeitam (subcontratar para países com) salários baixos e dizem às empresas para trabalhar com salários altos (dos americanos).
E depois três conclusões.
Primeiro: o papel do governo é precisamente estando abaixo da sociedade (daí as eleições) e acima das empresas, estabelecer as condições (as leis e regras), para que haja uma coincidência entre lucro e bem estar dos cidadãos.
Segundo: se tal não for possível, optar pela sociedade (rios limpos, ambiente saudável, segurança, etc.) e não pelas empresas (lucro). Uma coisa é o social, outra o privado.
E terceiro: até porque muitas vezes na ânsia do fácil esquece-se que a necessidade aguça o engenho.
Por exemplo, a necessidade de contratar salários mais altos aguça a qualidade da gestão (com impacto directo na produtividade sendo a produtividade por hora portuguesa apenas 63% da média da zona euro). Isto é, a qualidade das organizações. Cujo somatório dos valores acrescentados é o PIB per capita.
Ao fim e ao cabo, aquilo que se incentiva não é o que se obtém? Qualidade ou desleixo? Rigor ou facilitismo?
JORGE A. VASCONCELLOS E SÁ
Senior Researcher at CIGEST
MBA Drucker University / PhD Columbia University / Jean Monnet Chair
