O estado calamitoso do país (pré-anunciado desde 1995 com três livros) cria tão compreensivelmente um estado emocional como a sua inevitável consequência de dificultar o racional.
Não é pois de estranhar nos anos recentes, o crescente número de mitos na sociedade portuguesa.
Entre eles quatro.
Primeiro: para crescer é necessário inovação.
Segundo: para inovar é preciso grandes empresas.
Terceiro: a inovação requer tecnologia; e
Quarto: em alternativa (ou para facilitar) a inovação é importante o investimento.
O primeiro é um mito. O segundo é um mito. O terceiro é um mito. O quarto é um mito. A excepção é o quinto.
Começa por a resposta directa a que o crescimento requer inovação ser: 1) facilita, mas 2) não é indispensável.
Facilita porque o empresário cria riqueza: novo bem – procura – emprego – nova procura – etc. Daí a generalidade das marcas mais valiosas (Apple, Google, Microsoft, Amazon, Facebook, Coca-Cola, Disney, Samsung, Toyota) pertencerem aos países mais ricos.
E daí também mais importante que dar dinheiro do PRR a empresas que não passam de monos e canastrões a defender empregos do passado, criar os do futuro, dedicando grande parte do PRR a apoiar o empreendedorismo: microcrédito, start-up voucher, zero impostos, incubadoras, obrigatoriedade de cadeiras especializadas em todos os cursos de medicina a arquitectura, etc.
Mas embora a inovação facilite o crescimento não é imprescindível, podendo este ocorrer pela conjugação de dois factores: 1) copiar o que os outros fazem e 2) fazer mais eficientemente o de sempre.
O primeiro factor desempenha o mesmo papel da inovação. E o segundo chama a atenção de que o crítico para o crescimento é a produtividade por hora.
O PIB per capita é o produto do PIB por hora por número de horas trabalhadas por taxa de actividade (% em idade de trabalhar) por nível de emprego (1 – taxa de desemprego).
Pelo que se a produtividade por hora for um desastre (como p.e. a portuguesa que é apenas 63% da média da zona euro, média que inclui os gregos, nuestros hermanos, etc., etc.) só resta trabalhar mais horas, adiar a idade da reforma ou combater o desemprego.
O segundo mito de que inovar requer grandes empresas, roça o risível.
Começa porque nenhuma empresa nasce grande. Por isso se costuma dizer que no ventre de uma PME está uma multinacional a querer sair.
E segue que há evidência que frequentemente o tamanho dificulta a inovação (por criar uma cultura de conformismo e por isso a inovação de muitas multinacionais farmacêuticas “restringe-se” a adquirir start-ups), como sobretudo pelas inúmeras inovações disruptivas (profundamente transformadoras) com origens humildes que nasceram praticamente do nada.
De garagens? Apple, eBay, Microsoft, Amazon, YouTube, Hamboards, Nike, Mattel, HP, Google, Disney, etc. Da cozinha? Liquid Paper, Monopoly, ScreenMend, etc. Do meu quarto? Linkedin, Trivial Pursuit, Facebook, Dell, etc.
O terceiro mito associa a inovação à tecnologia, quando há múltiplos exemplos de unicórnios simples, recentes (Spanx, Rent the Runway, Dollar Shave Club) e mais antigos (Post-it, TRX, Kleenex, Band Aid, Liquid Paper, Tupperware).
E inclusive em Portugal, por exemplo o fenómeno das barbearias de luxo (Studio Barber Shop, Lisbon Style Barbershop) que conjugam serviço esmerado e produtos de estética de luxo com espaços de lazer: biblioteca, bar e sala de snooker.
Como salientou Drucker, frequentemente a chave para grandes inovações é a simplicidade, não a sofisticação.
Os exemplos de cima desmascaram o quarto mito de que a inovação ou o crescimento económico requerem grandes investimentos.
A lista dos países que mais investiram (em % do PIB) nos últimos vinte anos é liderada pelo… Butão. E o top ten inclui (além da China) a… Mauritânia, Senegal, Tanzânia, Irão, Panamá, Argélia, Samoa e o colosso económico… Uzbequistão.
O que conta não é o investimento. É a produtividade do investimento. Melhor, a produtividade geral da economia.
E de que depende a produtividade?
O PIB é o somatório do valor acrescentado das empresas (vendas menos aquisições externas) que é um “primo” da produtividade (vendas a dividir pelos custos).
Ora, tudo o que a gestão faz (em qualquer das suas nove áreas) é para aumentar as vendas (publicidade) ou reduzir os custos (financeiros, de produção, etc.).
Por isso os países mais ricos têm as empresas mais admiradas.
Por isso Drucker dizia que não há países subdesenvolvidos, há países subgeridos.
E por isso ainda é possível esquecer a inovação de produto (Tesla ou agora BYD com veículos eléctricos de baixo preço), esquecer a inovação de serviço (Studio Barber Shop), ou a de processo, ou o investimento.
Não é possível esquecer a qualidade da gestão.
Experimentem sem inovação (de que tipo for), sem investimento (em que montante for), modificar a atitude das pessoas e verão a produtividade (por hora) aumentar.
Tal requer incentivos fora das empresas (liberdade de mercado para acabar com os monos empresariais) e dentro delas (porque aquilo que se incentiva é aquilo que se obtém).
E a que área pertence os incentivos? Tenho ideia que é aos recursos humanos, uma das nove áreas da… gestão. Ao amigo leitor que lhe parece?
JORGE A. VASCONCELLOS E SÁ
Senior Researcher at CIGEST
MBA Drucker University / PhD Columbia University / Jean Monnet Chair
