Em 383 (D.C.) o general Magnus Maximus retirou tropas da Inglaterra para a Gália. O mesmo fez Constantino III em 407/408.

Desprotegida e sujeita a invasões bárbaras de Pictos (Escócia) e celtas (Irlanda) a nobreza inglesa escreveu ao imperador Honorius em 410 a pedir ajuda. Protecção.

Este com a capital já em Ravenna (para melhor protecção) e sujeito a invasões (visigodos) respondeu: “protejam-se a vós próprios”.

Em 440 os britânicos insistiram através de nova carta que começava: “A Aécio, três vezes cônsul, eis os lamentos dos britânicos”, e continuava: “os bárbaros empurram-nos para o mar; o mar para terra; e entre estes dois ou nos matam ou morremos afogados”. Sem promessa de ajuda a resposta foi: “tratem de vocês”.

Abandonados por Roma e deixados a si próprios, os britânicos primeiro pegaram em armas para se defender. E depois perguntaram-se porquê manter os magistrados romanos? Se ao fim e ao cabo, Roma já não se responsabilizava pela segurança, como poderia reivindicar autoridade?

E assim terminou o remanescente da presença romana nascendo novos regimes políticos: pequenos governos regionais (Dumnonia, Gwynedd, Powys, Rheged, etc.) que vieram dar origem aos sete reinos da heptarquia: Northumbria, Mercia, Anglia de leste, Kent, Essex, Sussex e Wessex.

Lutando entre si e contra novas invasões de bárbaros germânicos (Jutas, Frísios, Anglos, Saxões):

– a maioria das cidades diminuíram ou desapareceram;

– a moeda entrou em desuso;

– o comércio de longa distância colapsou;

– os banhos, latrinas, esgotos e água corrente, típicos das cidades romanas degradaram-se por falta de manutenção;

– o mesmo aconteceu aos edifícios públicos;

– os blocos urbanos planeados deram lugar ao caos onde imperava a sujidade e o lixo;

– causando epidemias e pestes (como a justiniana do século sexto);

– em consequência a população diminuiu significativamente (segundo alguns historiadores em cerca de 1/3); e

– a literacia colapsou: enquanto na bretanha romana ela era comum na administração, exército e comunidades urbanas, algumas décadas após 410 (data em que a resposta do imperador Honorius “marca” o fim da presença romana) a grande maioria era analfabeta, excepto com pequenas bolsas cristãs no norte e oeste e é claro nos mosteiros.

Tudo isto fazendo de Inglaterra uma amostra do que se passou na Europa em geral e demonstrando que o sentido da História não é sempre de progresso.

E novamente salientando que Deus ajuda quem se ajuda a si próprio e que a fragmentação nunca criou força.

P.S.: Algumas vozes têm apelado à paz. Pergunto: o preço da paz é a escravatura? E encontramos a paz na alma dos escravos ou na presença da liberdade?

JORGE A. VASCONCELLOS E SÁ

Senior Researcher at CIGEST

MBA Drucker University / PhD Columbia University

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