As novas tecnologias possibilitam-me dar conferências a longa distância. Reservo para tal geralmente as sextas-feiras.

No dia 17/4 às 10h00 tocou a campainha.

Continuei a conferência até que a empregada bateu à porta do escritório informando-me que lá fora estavam cinco polícias e dois carros com dez bombeiros.

Interrompi a conferência. E saí perplexo: a última multa de estacionamento da EMEL por ir além do prazo uns escassos minutos, tinha sido paga no próprio local após o carro ter sido bloqueado.

Mas sobretudo preocupado. Bombeiros? Vivo numa zona de fogos… Percorri assim o corredor incentivando as minhas capacidades olfativas. Debalde. Não me cheirava a nada. Porque vim a descobrir que o esturro não tem cheiro.

O senhor está a fazer uma queima?

Estou.

Com que autorização?

Da lei.

Onde está o papel?

Volto já.

 Aqui está a comunicação de realização de queima de amontoados (decreto-lei 82/2021 de 13/10) e nº de pedido 8775356 com a data de 13/4/2026 às 17h, 57m e 13 segundos. Algo mais?

 Não. É que ninguém nos (a nós GNR e bombeiros) disse nada.

Eu explico.

Não tendo recolha de lixo, periodicamente tenho que queimá-lo: um pequeno amontoado sob constante vigilância, com uma faixa limpa de vegetação à volta, etc.

Antes era assim: Está lá, é da GNR? É para avisar que vou fazer uma queima. Está lá, é dos bombeiros? É para… (e depois apareciam na mesma os bombeiros porque quem recebeu a mensagem tinha-se esquecido de notificar).

Agora informa-se a câmara municipal que tem o dever de informar os bombeiros e a GNR. Só que não cumpre o seu dever porque quem recebe a comunicação está ocupada/o com tarefas superiores a pintar as unhas ou dar dois dedos de conversa.

A falta de comunicação continua. O que mudou é que antes apareciam apenas os bombeiros e agora vêm também acompanhados da GNR.

Resultado?:

    • Interrompe-se o trabalho do munícipe;
    • Cinco GNRs deslocam-se;
    • Dez bombeiros idem idem, aspas aspas.

Para? Nada.

Que se pague IMI… Que se pague AIMI… Que não tenha recolha de resíduos, esgotos ou fornecimento de água… Que tenha que informar… Agora que o funcionário camarário não cumpra o seu dever é que não pode ser. Tudo mal.

Tempo. Gasolina. Energia. Um desperdício.

É por isto que em Portugal se pedem mais e mais recursos, sem parar. Nunca chegam. E em todas as áreas. Os recursos nunca bastam porque são desperdiçados.

Uma amiga da minha mãe esteve dias numa maca de uma urgência hospitalar sem comer nem beber. Uma outra amiga, perdeu a paciência, levantou-se, saiu sem que ninguém lhe dissesse nada (com a roupa de dormir com que tinha entrado), meteu-se num táxi e o taxista levou-a ao lar (que pagou). Até hoje não há conhecimento que tenham dado pela falta dela.

Portugal não tem nem nível, nem qualidade de vida, porque não tem organização.

Porque sendo os recursos por natureza escassos, o papel da organização é maximizar a sua eficiência.

Só que a organização requer esforço de pensar. E força para dar ordens e penalizar quem não cumpre o seu dever.

E isto requer a ausência de preguiça e cobardia. Duas características transversais em Portugal, dos subordinados às chefias.

Não? O que vai acontecer à funcionária/o camarária que desbaratou o dinheiro dos munícipes porque não fez uma simples comunicação? Tudo como dantes no quartel de Abrantes.

Quanto ao mais, dois pontos.

Primeiro: um empregado tem direito a salário, higiene e segurança e o dever de diligência, porque trabalhar é servir.

Não tem só direitos, porque sendo os direitos de uns os deveres de outros, faria destes escravos.

Segundo: não é errar que é humano, é acertar que é humano: errar é próprio dos animais mais irracionais.

Assim, se de vez em quando se erra, tal é lamentável. Porque as acções têm consequências. Para os outros certamente. E para quem erra também deveriam.

E porque ainda 1) quem faz um cesto faz um cento, 2) não há nada que se espalhe mais rapidamente que os maus exemplos, e 3) os utentes têm o direito a serem bem servidos.

JORGE A. VASCONCELLOS E SÁ

Senior Researcher at CIGEST

MBA Drucker University / PhD Columbia University

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