Chegou-me através da net um vídeo de uma senhora que explicava a morte do marido.

Sentiu uma dor no peito. Chamou-se o INEM. Não tendo chegado ao fim de 30 minutos ligou-se novamente. A resposta foi: esperem que isto não é como vocês querem.

Passados mais vinte minutos de desespero meteram-se no carro. “Não faças essa curva apertada tão depressa” foram as últimas palavras do marido.

A ser verdade (?) demonstraria mais que incompetência (50 minutos). Mais que preguiça (ausência de iniciativa do INEM de telefonar para: metam-se no carro já que não dispomos de meios). Mais que irresponsabilidade (dores no peito há muitas…). Mas pura crueldade e falta de carácter: isto não é como vocês querem?! Isto não é como vocês querem?

A ser verdade (?), este funcionário deveria ser imediatamente despedido acompanhado de uma ordem de serviço manifestando opróbrio, público. Para todos ficarem a saber. Todos.

Mas se nada se passar (?), à irresponsabilidade e crueldade do funcionário juntar-se-á a preguiça e cobardia da chefia: deixa andar, para quê ter aborrecimentos?

E ambos com o conforto do raciocínio de ao fim e ao cabo as coisas não são tão más quanto as pintam: há mais de cinquenta anos aquando do 25 de Abril era muito pior.

E quem o diz não são convidados ocasionais na televisão, mas comentadores com programas próprios e periódicos: vejam como estamos bem porque há mais de 50 anos era pior. Por exemplo na taxa de mortalidade e literacia.

Trata-se obviamente de um erro grosseiro comparar hoje com há meio século.

Primeiro ocorreram várias causas exógenas, independentes aos governos, com os progressos na medicina (e vacinação) e na educação (com as novas tecnologias).

Por isso, a nível mundial nos últimos 50 anos a taxa de mortalidade infantil caiu mais de 2/3, de 10% (em 1974) para 3% actualmente.

Também a taxa global de literacia cresceu de ± 67% para 87% e na maioria dos países desenvolvidos atingiu 99%.

E segundo, e ainda a nível de causas independentes dos governos, isto é exógenas, Portugal entrou na EU (liberalizando a importação inclusive de práticas) e recebeu biliões de fundos. Mal seria se…

Por isso, comparando com meio século atrás não existem exemplos de países no mundo que estejam piores em saúde e literacia (e poucos tiveram as vantagens portuguesas da integração económica e ajuda externa).

Assim, comparações de meio século, não são análises, são propaganda: em 1974 Portugal também não tinha internet, telemóveis, redes sociais, computadores pessoais, GPS, cirurgias robóticas, chips com IA implantáveis em pacientes, etc., etc. pela simples razão que não existiam.

Pelo que só três tipos de comparações fazem sentido.

Primeiro, no presente entre países (com semelhantes: membros “atrasados” da EU como Espanha, Irlanda, Grécia, etc.). Segundo, a evolução de meio século também entre países em condições semelhantes. E terceiro, o progresso de meio século antes e depois do 25 de Abril.

Em diversas variáveis: analfabetismo (saber ler e escrever), educação (percentagem que conclui o secundário), mortalidade, PIB per capita, etc.

E quer em termos absolutos (de um valor para outro), quer relativos (a melhoria sobre o valor inicial).

Ora nestes tipos de comparações há boas e más notícias.

Para exemplificar estas últimas tomemos a produtividade por hora, o grande sinal de uma economia (porque se pusermos as pessoas a trabalhar mais horas e todos, inclusive os mais velhos, a trabalhar, o PIB per capita coitado… lá acaba por aumentar).

E nesta variável de produtividade por hora (a nível de euros, em poder de paridade de compra, a preços actuais e com valores aproximados dado não existirem valores especificamente para os anos em causa), Portugal 50 anos antes de Abril progrediu 370% (isto é, aumentou para 4,7 vezes) e 50 anos depois de Abril melhorou 260% (progrediu para 3,6 vezes). Isto é pior após que antes de Abril.

Esta é apenas um exemplo dos três tipos de comparações que fazem sentido: 1) o presente face a outros países, 2) a evolução comparativa de Portugal com outros países durante 50 anos e 3) o progresso antes e depois de Abril.

Agora comparar o presente e meio século antes quando para os relatórios se usavam máquinas de escrever, reservar um voo exigia ir a uma agência física, se se perdesse um jogo de futebol tinha de esperar por (se houvesse) uma repetição (não existia streaming, gravações automáticas, replay), reinavam as listas telefónicas e as páginas amarelas, e simples operações financeiras requeriam ir para filas nos bancos, etc. etc., francamente… francamente…

Para quê/porquê comparar com o tempo da D. Maria Cachucha? Francamente… Porque será?…

Será porque quem controla o presente, controla o passado e quem controla o passado, controla o futuro?

Isto é, há que branquear a falta de carácter, preguiça e cobardia do presente com a consequente ausência de total sentido de responsabilidade?

P.S.1: A nova epidemia nos media portugueses é presidentes de câmaras terem programas de comentários, com o argumento de que é para falar com os munícipes.

O que levanta duas perguntas: primeiro, porque há-de o munícipe de Freixo de Espada à Cinta ter que ver/ouvir o senhor presidente de outra localidade? Não há um canal mais focado para a audiência-alvo?

E depois, porque fala o senhor presidente de tudo menos dos assuntos do seu município?

Será que o senhor presidente quer aproveitar-se da sua posição para se expor aos flashes e às luzes, exemplificando o ditado: chegaram à cidade e deslumbraram-se com as luzes?

 

JORGE A. VASCONCELLOS E SÁ

Senior Researcher at CIGEST

MBA Drucker University / PhD Columbia University

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