Conta-se que certa vez o Professor Marcelo Caetano comentou sobre uma tese de doutoramento de um aluno: “a sua tese tem coisas boas e novas, infelizmente as boas não são novas e as novas não são boas”.

Recordei-me desta história ao assistir a alguns debates presidenciais com a enfâse repetida (de alguns) sobre a terceira via.

Nem capitalismo, nem comunismo, mas uma economia mista partilhada pelo estado (representado pela sua administração central e empresas/organismos públicos) e as empresas privadas a fazerem o… resto.

Trata-se de uma ideia 1) velha e 2) má (podia ser pior…).

A terceira via (que viria a ser recuperada como um discurso vago e redondo na década de 90, destituído de aplicação prática) teve origem no movimento dos não alinhados criado a partir da conferência de Bandung em 1955.

Arregimentando países recém descolonizados caracterizava-se por politicamente (como o nome indica) não alinhar nem com o bloco dos EUA, nem com o da União Soviética e economicamente manter a consistência do nem, nem: nem planeamento central, nem economia de mercado. Um misto.

O resultado? Um desastre destruindo as instituições políticas (democracia) e económicas (protecção da propriedade privada e concorrência).

Dois indicadores utilizados pelos prémios Nobéis da economia de 2024 (D. Acemoglu, J. A. Robinson e S. Johnson) retratam o desvario que ocorreu nas décadas imediatas à Segunda Guerra Mundial após a descolonização francesa e inglesa.

O indicador constraints on the executive utilizado pelos Nobéis para medir a qualidade das instituições “mergulhou” entre 1946 (quando começou a descolonização) até ao seu ponto mais baixo em 1977.

E o mesmo acontece com outro indicador Nobel, o democracy index, e exactamente também até (ao pior ano de) 1977.

A diferença entre a nota nos dois indicadores em 1946 e 1977 é altamente significativa em termos estatísticos.

Sendo hoje pacífica a importância da qualidade das instituições para o desenvolvimento económico (o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente e a corrupção é um imposto sobre o crescimento), enquanto os países ocidentais e outros (Japão, Coreia do Sul, Nova Zelândia, Austrália, Taiwan, etc.) abraçavam decididamente a liberdade (política e económica) e consequentemente se desenvolviam, os não alinhados reivindicavam… uma nova ordem internacional económica para reduzir a desigualdade entre as nações e… reuniam-se: Bandung, Belgrado, Havana, etc.

Com que sucesso?: hoje os dez países mais ricos têm um rendimento per capita 60 vezes o dos dez mais pobres e os 20% mais ricos 30 vezes os 20% mais pobres.

Tudo isto lembrando uma coisa e desmistificando outra.

Lembrando como Napoleão explicava as vitórias de França: enquanto o inimigo se reunia, os exércitos de França… marchavam.

Enquanto uns optavam pela liberdade, aceitavam a responsabilidade (como o preço daquela) e abraçavam o trabalho (um concorrente é um ajudante), outros optavam pelo nem, nem e exigiam. Eu quero. Você tem que.

E desmistificando a responsabilidade dos europeus pelo fosso entre as nações: três décadas após a Segunda Guerra Mundial a qualidade das instituições no terceiro mundo era estatisticamente irreconhecível relativamente à deixada aquando da independência.

Nem, nem? Um desvario, confirmado pela estatística e reconhecido pela História, mas em Portugal ignorado por alguns candidatos presidenciais.

P.S.: A partir da década de oitenta, a generalidade das ex-colónias tomaram-se de juízo (acentuado depois com a queda do muro) e progrediram até ao presente na qualidade das suas instituições, medido pelos indicadores Nobéis, seja pelo constraints on the executive seja pelo democracy index.

JORGE A. VASCONCELLOS E SÁ

Senior Researcher at CIGEST

MBA Drucker University / PhD Columbia University / Jean Monnet Chair

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