Não percebendo nada de política, tenho ficado intrigado não só com esta palavra-chave das eleições, mas também com a incapacidade geral confessada em definir: o que é o sistema?

Uns (se bem percebo) são contra. Outros (parece-me) defendem-no. Terceiros (ainda) dizem-se fora dele. E uns (últimos) acima. Mas que grande confusão.

Por isso pus-me a investigar e partilho as conclusões a que cheguei sobre o significado do sistema.

O que é isso afinal do sistema? Bem, parece-me que o sistema tem três áreas que se dividem em oito componentes.

As áreas são: A) partidária/política; B) económica; e C) social.

Partidariamente significa o duopólio partidário com as consequências reconhecidas pelo professor de Havard M. Porter no seu livro com K.  Gehl: The Politics Industry, lembrando Lord Acton: o poder corrompe, o poder absoluto, corrompe absolutamente.

E tal muito especialmente quando os duopolistas são os mesmos ao longo do tempo.

É que primeiro, algumas pessoas resistem a tudo excepto às tentações (O. Wilde). E segundo, a probabilidade de resistir a uma tentação é inversamente proporcional ao tempo a que se é exposto a ela.

Trata-se de uma simples lei física, lembrando o provérbio alemão “stille wasser sind tief” (águas paradas são profundas).

Há aliás uma história verídica do tempo de Getúlio Vargas, presidente do Brasil, em que este se defrontava com uma corrupção avassaladora na alfândega do sul (com o Uruguai e Argentina, na altura países ricos).

Tinha um funcionário com fama de incorruptível: carrancudo, distante das pessoas, pontual, exigente, oriundo do sul do Brasil de famílias alemãs. Germânico em tudo.

Chamou-o e contra a sua vontade, insistindo forçou-o a aceitar a chefia das alfândegas do sul do Brasil.

Ao fim de seis meses recebeu um telegrama dele: solicito substituição imediata. Urgentemente. Já.

Exasperado Getúlio Vargas telefonou-lhe: o que se passa?

Resposta: estão quase a chegar ao meu preço…

Do duopólio partidário emergem duas consequências. Antes de mais, os partidos são agências de empregos. Participando como orador em reuniões partidárias, no intervalo as conversas entre a audiência são: em que empresa pública estás?… ainda estás no instituto?… porque não falas com o X para ver se te arranja algo? Em síntese: eu dou-te emprego e tu votas em mim para líder do partido, criando-se assim uma máquina para ganhar eleições internas.

Aliás, quaisquer dúvidas foram desvanecidas por dois factos recentes.

Um ex-ministro revelando que enquanto exercia funções tinha um assessor para cunhas.

E um (então) secretário-geral adjunto de um partido apanhado numa escuta em que sugeria a um ministro do seu partido que desse emprego a um conhecido. O que seria aceitável (por não haver conflito de interesses) se 1) ele e o ministro não pertencessem ao mesmo partido e 2) o emprego não fosse em entidade pública (pago por todos nós).

E depois para a vitória nas eleições externas (agora não internas) institui-se um outro sistema, mais abrangente, mas igualmente de compra de votos: subsídios a quem não trabalha, com vários pomposos nomes e sob o acordo implícito (il va sans dire, mais va mieux en le disant), toma lá o dinheiro, dá cá o voto.

Isto resulta na primeira característica da parte económica do sistema: uma percentagem significativa da população não trabalha. E vive à custa dos outros. Porque apesar de não trabalharem, comem. E esse é que é o problema, violando a recomendação da Bíblia (S. Paulo, carta aos Tessalonicenses): quem não quiser trabalhar, que também não coma.

E seguidamente institui-se a economia de lobby e a ausência de concorrência.

O mercado (intermediação do dinheiro na escolha do melhor preço, qualidade e entrega) é substituído pelo lobby onde impera a troca directa, em espécie (não dinheiro) de favores. Scratch my back and I will scratch yours. Traduzindo para português: uma mão lava a outra (e as duas a cara) e tudo resultando que a dimensão do mercado é restringida à extensão do lobby. O mercado é o lobby.

E no remanescente a concorrência é desvirtuada e corrompida. Quer pela extensão do sector público (há que alimentar as clientelas), quer pela intervenção do poder político (concentrado pelo duopólio) na área económica: o poder, quando existe, tende a ser exercido. Tem horror ao vácuo.

E assim o poder numa área estende-se a outras: da política, à económica e também à social.

Aparece então a cancel society, silenciando os que discordam (censura na prática) e transformando alguns media em departamentos de propaganda partidária (bastando ver a desproporção entre os votos dos portugueses e os comentadores em todo o tipo de media). Para lavagem ao cérebro camuflada (e portanto desonesta). Em que políticos se travestem de jornalistas e revelam uma doença psicológica: transtorno dissociativo de identidade (TDI), vulgarmente conhecido como doença de dupla personalidade.

Enfim, amigo leitor, eis o que (com muito esforço e pedindo antecipadamente desculpa por qualquer incorreção) consegui descobrir sobre o que é o sistema: 1) duopólio partidário; 2) os partidos não passam de agências de empregos; 3) compra de votos (incentivando a preguiça e destruindo a produtividade); 4) subsídio-dependência (uma imoralidade); 5) substituição do mercado pelo lobby; 6) no remanescente corrupção; 7) cancel society e 8) lavagem ao cérebro.

Quanto às consequências não encontrei nas minhas pesquisas nada de satisfatório (pelo que peço desculpa) excepto duas perguntas: dado os biliões que há quarenta anos a União Europeia envia para Portugal, como se explica o estado do país (incluindo que trinta por cento dos jovens nascidos em Portugal entre 15 e 39 anos – cerca de 850 mil pessoas – tenham emigrado)? E a produtividade por hora portuguesa seja 63% da média da zona euro? Média, amigo leitor, média, incluindo todos, gregos, nuestros hermanos, etc. Todos.

Quanto ao mais, como disse George Orwell em 1984, quem controla o passado, controla o futuro e quem controla o presente, controla o passado. Isto é: presente – passado – futuro.

O provérbio russo é o passado a Deus pertence.

Os que beneficiam do sistema dizem que há 50 anos era pior. A sério? Há 50 anos? Há meio século? Caramba… Mas já agora: desde quando dois males fazem um bem? E estão os portugueses condenados a escolher entre o mau e o muito mau?

É que como diz Isaías no Antigo Testamento: onde não há visão, o povo definha.

JORGE A. VASCONCELLOS E SÁ

Senior Researcher at CIGEST

MBA Drucker University / PhD Columbia University / Jean Monnet Chair

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