Há seis principais modos de interpretar a História.

A política, na esteira de Ortega y Gasset (eu sou eu e as minhas circunstâncias), onde a História é vista como uma sucessão de dinastias, leis e batalhas, isto é, uma sequência de factos.

A geográfica em que o clima, o solo e a localização determinam o temperamento e os acontecimentos. A geografia é destino.

A marxista (em que a causa última é a economia) e a do “culto da personalidade” onde a força dinâmica são os grandes homens. Sem G. Washington não haveria independência dos EUA, sem Robespierre a revolução francesa e sem Lenine a bolchevique.

A quinta é a teológica (N. Berdyaev, P. Tillich, M. Buber) onde, independentemente de Deus interferir ou não, é a relação entre Ele e o homem que formata a História. Esta explica por exemplo a não absorção dos judeus pelas nações que acolheram a sua diáspora durante dois mil anos.

Finalmente F. Hegel, O. Spengler e A. Toynbee vêem a História como uma entidade viva, com as civilizações replicando a vida humana, desde o nascimento, passando pela adolescência e maturidade até à morte.

E nesta última há uma grande diferença. Para Spengler (O Declínio do Oeste publicado em 1918 quando a Inglaterra estava no auge do seu poder!) a morte é fatal.

Para Toynbee (Um Estudo da História) a História é uma evolução darwiniana de formar inferiores para superiores de vida, não estando consequentemente as civilizações condenadas a morrer.

Não pode assim deixar de ser digno de admiração os mais de dois mil anos que durou o império romano desde a sua fundação (por Rómulo em 753 a.C.) até à queda de Constantinopla em 1453 (sob Constantino XI Paleólogo) às mãos dos turcos que tornaram a invenção assíria do empalamento (no século 9 a.C.) numa prática frequente como punição por crimes, terror militar em zonas de guerra e dissuasão de revoltas.

Quais os “segredos” da longevidade romana?

Há os militares e da esfera civil. Sobressaindo entre os primeiros a disciplina imprescindível à coesão.

Em guerra, a prática de dizimar (matar um em cada dez) quando uma legião tinha dado sinais de cobardia. Em paz, o apedrejamento de qualquer sentinela que adormecesse durante a sua vigília.

A disciplina permitia aos romanos combater como um todo apesar de individualmente não serem mais fortes que os inimigos.

Júlio César p.e. nos seus comentários sobre a guerra das Gálias enfatiza a robustez física dos gauleses e germanos. Tácito no seu tratado Germânia elogia o vigor e altura dos germanos. E Amiano (século 4 d.C.) mais uma vez ressalta o tamanho e robustez quer dos Hunos, quer dos Godos.

Sendo que as qualidades militares não faziam mais que retratar as virtudes e práticas civis que atingiram o seu expoente máximo durante a república no ocidente.

A começar pela importância da família e assim os romanos “inventaram” uma forma de aconselhamento matrimonial.

A deusa Viriplaca oferecia os seus templos para sobretudo as mulheres desabafarem, buscarem orientação e tentarem a reconciliação. E os cônjuges beneficiavam também de vários mecanismos: o paterfamílias da esposa, arbitragens privadas e até religiosas (especialmente através de Júpiter).

Em Roma reinou durante muito tempo o equilíbrio do sistema político fruto da coexistência, simultaneidade de três formas de governo: executivo forte (dois cônsules), poder aristocrático (senado) e a democracia (assembleia da plebe). Os três em conjunto.

Depois, seguindo Churchill quando dizia que o principal argumento contra a democracia é uma conversa de cinco minutos com um eleitor, Roma oferecia a estes subsídios (± 20% da população de Roma recebia trigo gratuito) e futebol (não só combates no Coliseu mas também as corridas de quadrigas no circo máximo que acomodava 250 mil espectadores e tinha a dimensão de 540 por 80 metros).

Corriam quatro equipas, os encarnados, brancos, verdes e azuis, sendo os condutores idolatrados, extraordinariamente bem pagos e tendo a população um apego visceral a cada equipa: o imperador Calígula, p.e., sendo um adepto fanático dos verdes, umas vezes passava a noite nos estábulos e outras colocava guardas para impedir que adeptos de equipas adversárias perturbassem o descanso dos cavalos.

Mas mais importante que tudo eram as virtudes que os romanos admiravam e consequentemente incentivavam.

A memória de Agilia Prima é preservada por uma placa de pedra onde está inscrito o seu texto funerário.

Nela o seu marido elogia a sua castidade, modéstia e frugalidade.

E ela escolheu para epitáfio palavras plenas de sabedoria e bondade: “Querido marido, não chores porque te precedi na morte já que é tonto perder a alegria de viver quer pela mágoa, quer pelo medo da morte.”

E terminando com uma mensagem a todos os vindouros: “A todos os que vivem em cima, homens e mulheres, felicidades, sede felizes”.

JORGE A. VASCONCELLOS E SÁ

Senior Researcher at CIGEST

MBA Drucker University / PhD Columbia University

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