É conhecida a situação que Milei herdou: uma inflação de 54% ao mês e 17000% anualizada.
São conhecidos os sucessos do governo de Milei na Argentina: após uma forte contracção (devido ao ajustamento em 2024), o PIB per capita cresceu em 2025 e (previsivelmente) em 2026 perto de 5% e 4%, respectivamente. Entre 1,5% e 3% acima da média da América do Sul.
E são ainda conhecidas a generalidade das medidas tomadas.
Redução de despesa pública em 30% em termos reais (não é o mesmo que equilibrar as contas aumentando impostos ou fazê-lo reduzindo os gastos). Corte de impostos. Eliminação do deficit de 15% em termos do PIB. Desregulamentação (envolvendo 800 reformas).
Talvez seja, contudo, menos conhecido cinco aspectos que Milei na sua entrevista à revista Economist aborda.
Primeiro: o objectivo geral. O político tradicional pede votos para tratar da vida dos eleitores. Milei pediu votos para as pessoas poderem tratar da sua própria vida. Sem o estado às costas, serem os arquitectos da sua vida. Senhores do seu destino.
Segundo, porquê?: Milei considera o estado como “uma organização criminosa violenta, que vive coercivamente à custa de uma fonte de rendimento chamada impostos, um remanescente da escravatura”.
Terceiro, como?: “com coragem. Há pessoas que sabem o quê, mas não como fazer. Há pessoas que sabem como mas falta-lhes a coragem. Eu sei o quê, como e tenho a coragem.”
Quarto, com quem?: Milei aposta no estreitamento das relações com dois países. Os EUA e Israel.
De Washington vieram benefícios concretos e potenciais: reforço do apoio do FMI, disponibilidade do tesouro americano para comprar dívida Argentina e credibilidade externa com a chancela política de Washington funcionando como um respaldo.
Os Acordos de Isaac (com Israel) por seu lado, apostam em políticas não macro, mas sectoriais: transferência de tecnologia para aumentar a produtividade na agricultura, saúde, energia, etc., através de projectos concretos.
Quinto, o maior receio de Milei?: a inversão futura das políticas devido “à casta, aqueles que perdem com as reformas: políticos corruptos… jornalistas avençados… empresários… sindicalistas e outros profissionais…”
É que, por exemplo, nos programas sociais uma série de intermediários foram abolidos (duplicando, segundo Milei, os benefícios finais): ONGs, institutos, fundações, etc., todos envolvidos na distribuição de alimentos e combate à pobreza. Pelo que o ministério do capital humano diz ter poupado (apenas em 2024) 1,9 biliões de pesos.
O receio advém do poder do inimigo. É que ele não se restringe à área económica mas ao que é hoje designado por marxismo cultural: “A queda do socialismo ocorreu não em 89 (aí tornou-se evidente) mas em 61 quando construíram o muro. Que país constrói uma barreira para os seus cidadãos não fugirem?
Assim perante o falhanço na área económica, os marxistas encapotados mudaram o combate para outras áreas: a agenda LGBT… feminismo radical… mudança climática… jornalismo… cortei-lhes a publicidade… Sabe qual é o órgão do corpo humano mais sensível?: o bolso”.
E o objectivo desse inimigo é criar a “forma mais refinada de escravatura: aqueles que aderem à agenda (do marxismo cultural) são escravos sem… o saberem.”
P.S.: Recentemente, enquanto os cidadãos de um país dançavam eufóricos nas ruas com a perspectiva de liberdade, os partidos e medias portugueses que odeiam os EUA “indignavam-se” com a violação do direito internacional. Duas perguntas: 1) O que é mais importante? O direito internacional ou os direitos humanos?
E (2) a acção não foi consequência de outras anteriores do mesmo tipo (directamente ou através de proxies) do país alvo?
JORGE A. VASCONCELLOS E SÁ
Senior Researcher at CIGEST
MBA Drucker University / PhD Columbia University
