A generalidade das pessoas procura a felicidade.

Exceptua-se os grandes homens: esqueça a felicidade, cumpra o seu dever (Peter Drucker) e daí ser possível suportar quase tudo se se tem uma missão na vida porque esta torna-se na fonte da felicidade.

Como aquilo que não pode ser medido não pode ser gerido, a preocupação com medir a felicidade, o bem estar geral, levou ou a indexes globais, ou a indexes parciais que separam a qualidade, do nível de vida.

Exemplo dos primeiros é o World Happiness Report (de Oxford, Gallup e UN SDSN) que ordena os países com base numa única pergunta: “numa escala de 0-10 em que degrau (de uma escada) colocaria a sua vida hoje?”

Finlândia é primeira, seguida pelos nórdicos e Israel está em oitavo lugar!: amigo leitor, oitavo… Israel…

No fundo da tabela o Afeganistão, o Líbano, o Iémen, e vários países africanos.

Portugal? Fora dos cinquenta primeiros lugares. Compreende-se… É um país em guerra como os de cima. Feio. Com mau clima. Péssima comida. Sem praia. Sem mar. Etc. Donde absolutamente compreensível.

Há depois índices parcelares que medem a qualidade de vida (isto é, os aspectos não monetários do bem estar): crime, congestionamento, clima, poluição.

E para medir o nível de vida há 1) o PIB per capita, 2) o rendimento nacional per capita (que corrige o PIB para medir o que fica na geografia após transferências internacionais) e 3) o rendimento nacional modificado (que extrai o efeito das multinacionais de caixa de correio, especialmente importantes em países como a Irlanda).

Mas nenhum destes indicadores mede o efeito que se descreve em baixo.

Tomemos um casal em Portugal com uma criança de 4 anos.

Para não sofrer o martírio (no mínimo, no mínimo martírio…) do SNS tem de ter um seguro de saúde com um plano completo (consultas + cirurgias + etc.) para toda a família que custa entre 120-150 euros por mês: valor médio = 135 euros.

Com a lotação esgotada nas alternativas, a família é obrigada a recorrer a um jardim de infância privado (3-6 anos) sem acordo com o estado. Valor médio de 450 euros por mês.

A avó sobrevive (o avô já não porque as mulheres vivem mais que os homens porque estes tratam-nas melhor que elas aos homens). Mas está dependente e trabalhando ambos do casal não pode ficar sozinha em casa.

Lares privados com apoio do estado? Em teoria há, mas na prática não. Valor médio/baixo juntando produtos de higiene e medicamentos: 1750 euros/mês.

A pensão média é de ± 650 euros e a de sobrevivência (sem filhos menores) de 60%, perfazendo ± 400 euros e dando um total de 1050 euros (isto no caso do falecido ter trabalhado e descontado), criando uma diferença para o preço do lar de 700 euros.

Somando tudo tem-se: 135 (do seguro de saúde completo) + 450 (jardim de infância) + 700 (de lar) = 1285 (@ 1300).

Contudo nos impostos é dedutível devido ao seguro até 1000 euros/ano por agregado (@ 85/mês), pelo jardim de infância até 800/ano (70/mês) e pelo lar até ± 400/ano (@ 35/mês), pelo que o valor final que a família gasta após deduções é de ± 1100.

Assim, se um casal ganhar 1400 euros líquidos cada (…) o valor mensal agregado com que fica para gerir a sua vida é de 2800 – 1100 = 1700.

Há ainda que somar o abono de família para uma criança de quatro anos numa família do 4º escalão no valor de ± 50 euros, perfazendo um total de 1750 euros.

Isto em Portugal.

E (p.e.) na Áustria? Também recebe 14 meses/ano. Mas não precisa de seguro privado porque quer os centros de saúde, quer os hospitais funcionam muito rapidamente e bem (experiência indirecta). Melhor que muitos privados em Portugal.

O preço médio de um jardim de infância do estado (sim, há lugares; sim, tem qualidade; sim perto de casa) é ± 250/mês.

E quanto ao lar, deixando de lado que a pensão média é de 1500 e fazendo as contas à pensão portuguesa… (650) a regra é dar ao estado 80% (@ 500), pelo que a família ainda ficaria com 150.

Donde um casal austríaco que ganha 2800 euros/mês/líquidos agregado fica com (2800 – 250 + 150) um valor de 2700.

Acresce que na Áustria todas as crianças de quatro anos recebem um “abono de família” (Familienbeihilfe und Kinderabsetzbetrag) de ± 230 euros e independente do rendimento, totalizando 2930 euros.

Isto é, uma família ganha 2800 líquidos? Muito bem.

Mas… onde? Em Portugal? Governa a vida com 1750.

Na Áustria? Tem 2930 para se organizar.

Diferença? 1,7 vezes (2930/1750) o de Portugal.

Por isso na Áustria, cada euro rende mais 70% que o português.

Posto de outro modo: com o mesmo salário líquido, três euros em Portugal transformam-se em cinco na Áustria.

Amigo leitor, nas contas em cima ficou muita coisa de fora: se tiver mais crianças, outros rendimentos, alguns detalhes, etc.

E ficou também de lado que na Áustria 1) as pensões são mais altas, 2) o salário médio é o dobro, 3) os preços do supermercado, casa, energia… e 4) a diferença de qualidade de vida.

Esquecendo tudo isso o essencial permanece: mesmo para famílias com iguais rendimentos, o rendimento per capita não apanha a diferença de nível de vida entre a Áustria e Portugal. A qual é muito grande: 70% superior.

Porque na Áustria em troca dos impostos o estado dá algo. Em Portugal?… Forçando à duplicação de gastos. Se eu pagar duas vezes um pão, o preço do pão é o dobro e o meu nível de vida metade.

E a terminar, e para aumentar a desgraça: 1400 euros/mês líquidos? É o salário mínimo na Áustria (embora não haja nacional, é tipicamente o mínimo sectorial). Em Portugal? Um privilegiado.

Moral da história?: a original contribuição da economia portuguesa é ter criado a necessidade de um outro indicador para medir o nível de vida (que não o rendimento per capita). Porque em Portugal um euro vale apenas 60 cêntimos (1/1,7).

Até Setembro.

JORGE A. VASCONCELLOS E SÁ

Senior Researcher at CIGEST

MBA Drucker University / PhD Columbia University

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