Alguns se recordarão de Maximus Decimus Meridius (interpretado por Russell Crowe) no primeiro filme Gladiador incentivar os seus oficiais antes da batalha na Germânia saudando-os com o motto do exército romano: força e honra (virtus et honos).

Enquanto o virtus é frequentemente salientado (o historiador grego Políbio, grande admirador de Roma, referia que os treinos pareciam verdadeiras batalhas), já o honos (honra) é raramente enaltecido.

E no entanto a promoção do carácter (sobretudo nos tempos iniciais e médios da República) era tão importante quanto a força, com os comandantes considerando a ausência de honra como um vírus levando primeiro ao caos, depois à desmoralização e por fim à derrota.

Certamente lembrar-se-ão de Sertório, que romano e apoiante de Mário na guerra civil contra Sulla, “sucedeu” a Viriato à frente dos lusitanos.

Um dos seus soldados após conquistar uma cidade insultou e tentou violar uma mulher que defendendo-se arrancou-lhe os olhos.

Em vez de a punir, Sertório ordenou a execução de uma coorte inteira (480-600 homens) por alegadamente terem cometido actos de semelhante brutalidade.

E da honra deriva a lealdade. Quem viu a série Roma (da HBO) recordar-se-á de dois legionários Titus Pullo e Lucius Vorenus, inicialmente adversários, no fim amigos.

Existiram na realidade: eram dois centuriões que se odiavam pela rivalidade para lugares semelhantes.

Sob ataque dos Nérvios (uma tribo do Norte da Bélgica que César descreveu como o povo mais guerreiro da Gália), Pullo após acusar Vorenus de cobardia e quebrando as ordens de combate, investiu contra os atacantes tendo rapidamente sido cercado e colocado numa situação desesperada.

Em vez de esperar e livrar-se de um rival, Vorenus aceitou um risco extraordinário, foi em ajuda e salvou Pullo, levando César (tanto um admirador da disciplina como daquilo que em hebraico se chama rosh gadol por oposição a rosh katan, isto é obediência com iniciativa) a declarar que era impossível decidir qual dos dois tinha mais valor.

Ross Perot (duas vezes candidato a presidente dos EUA) dizia nunca contratar um homem que enganava a mulher, porque se a mulher não podia confiar nele, quem podia?

E Augusto (sobrinho neto de César) “concordando” fez do adultério um crime público.

Esta lei era especialmente seguida com os legionários punindo um comportamento que não só trazia discórdia, mas também desonra ao exército e indo as punições do espancamento à despromoção e até à expulsão.

No fundo o motto virtus et honos corresponde às duas únicas características pessoais num líder (aquele que produz resultados através dos outros por oposição a um profissional/técnico cujos resultados vêm através dele mesmo): 1) coragem (para ver a realidade como é e agir em consequência) e 2) carácter (cuja ausência destrói pessoas e mina a moral).

Tudo o resto na liderança é gestão: estabelecer objectivos, motivar, pôr a pessoa certa no sítio certo, coordenar e controlar.

Como é possível produzir resultados através dos outros sem isto, sem gestão?

Por isso não há liderança, só há gestão efectiva.

Excepto, é claro, relativamente às duas características pessoais de virtus et honos.

JORGE A. VASCONCELLOS E SÁ

Senior Researcher at CIGEST

MBA Drucker University / PhD Columbia University

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